Intervenção terapêutica
Pedro Henriques Santos
Médico Interno de Psiquiatria da Infância e da Adolescência
Sara Pedroso
Assistente Hospitalar de Psiquiatria da Infância e da Adolescência
Serviço de Pedopsiquiatria, Hospital Pediátrico - Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra
DESCRIÇÃO:

Cerca de 25 a 35% das crianças com diagnóstico de Perturbação de Hiperatividade/Défice de Atenção (PHDA) têm uma Perturbação de Ansiedade, sendo uma das comorbilidades mais comuns e debilitantes nestas crianças. A presença de ansiedade pode afetar a resposta ao tratamento da PHDA, assim como o tratamento da PHDA pode influenciar os sintomas de ansiedade. De salientar que alguns dos sintomas das perturbações de ansiedade são semelhantes aos da PHDA, como, por exemplo, a dificuldade em manter a concentração (devido a preocupação excessiva com outro assunto) e a irrequietude (pela ativação do Sistema Nervoso Simpático).

PORQUÊ:

A co-ocorrência de ansiedade e PHDA pode ter diversas etiologias. Estudos genéticos em famílias mostram que a PHDA e a ansiedade são perturbações independentes, porém, as crianças com PHDA e que também são ansiosas partilham os mesmos problemas sociais associados às Perturbações de Ansiedade. Assim, os fatores ambientais são muito importantes, especialmente pelo impacto que a PHDA exerce nas crianças e no seu meio. Estas crianças podem ver-se prejudicadas nas aquisições académicas, bem como nas relações interpessoais com os pais, professores e grupos de pares.

TRATAMENTO:

O tratamento da PHDA com ansiedade deve encarar a otimização dos sintomas de PHDA como uma prioridade, exceto se os sintomas da Perturbação de Ansiedade forem particularmente graves e/ou incapacitantes. Os psicoestimulantes não estão contraindicados, nestes casos, nem a PHDA é necessariamente resistente ao tratamento com psicoestimulantes. No entanto, de facto, pode existir uma resposta menos favorável ao tratamento da PHDA com psicoestimulantes quando a ansiedade está presente. Pode ainda ser prudente fazer uma titulação mais lenta dos psicoestimulantes, em indivíduos suscetíveis a ansiedade. Caso a intervenção farmacológica esteja a ser insuficiente na melhoria dos sintomas de ansiedade, esta deve ser tratada em psicoterapia, nomeadamente psicoterapia cognitivo-comportamental, com eventual adição de medicação dirigida (inibidor seletivo da recaptação de serotonina) ou substituição do psicoestimulante por um psicofármaco que atue em ambos os sintomas (atomoxetina). A melhoria dos sintomas de PHDA e de ansiedade aumenta substancialmente a qualidade de vida dos indivíduos.