Perguntas frequentes sobre PHDA

PHDA: Do preconceito à ciência…

Em Portugal, a designação oficial deste distúrbio do neurodesenvolvimento ficou refém duma má tradução. Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) é a designação oficial das versões portuguesas da DSM. Contrariamente ao termo em inglês Attention Deficit Hyperactivity Disorder (ADHD), à denominação espanhola Trastorno por Déficit de Atención e Hiperactividad (TDAH) e à designação portuguesa do Brasil Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), a tradução portuguesa coloca toda a ênfase na hiperatividade e secundariza o défice de atenção, claramente o aspeto mais importante desta síndroma. A investigação mostra hoje, que a hiperatividade é secundária ao défice de atenção e não o oposto, como se pensava até há pouco.

O problema principal e mais persistente da PHDA é o défice de atenção.
Durante muito tempo foi considerado um problema de rapazes nos primeiros anos de escolaridade, hiperativos, incapazes de permanecer sentados, de se calar, ou de cumprir regras. Apesar de algumas crianças, jovens e adultos com PHDA terem problemas com o comportamento agitado e excessivamente impulsivo, a maior parte dos indivíduos com PHDA não se apresenta dessa forma. A maioria das raparigas, dos rapazes após o início da adolescência e a maioria dos adultos mantém dificuldades crónicas, são calmos e distraídos, sem apresentar qualquer hiperatividade ou agitação. O novo paradigma é o de considerar a PHDA como o resultado duma série de défices neuropsicológicos, concretamente da função executiva e cada vez menos um problema primariamente do comportamento.

Na base da PHDA está um défice importante da função executiva.
A primeira descrição da entidade que atualmente se designa por PHDA tem quase 250 anos e foi feita em 1775 por um médico alemão, que publicou na revista científica “Der Philosophische Arzt” uma situação que designou como “Attentio Volubilis”, caraterizada por grande distratibilidade e pobre autorregulação. Reparese como até no século XVIII se dava mais importância ao problema atencional do que ao comportamento difícil associado.

A PHDA é um problema real e tem uma história na literatura médica de mais de dois séculos.
A PHDA é uma perturbação que afeta 5-7% da população em idade escolar e 2,5-3% da população adulta segundo os estudos epidemiológicos internacionais.
O enorme crescimento do uso de metilfenidato verificado nos últimos 10 anos não se deve a nenhum “problema de saúde pública” mas sim a um conjunto de fatores entre os quais: a) um maior reconhecimento dos sintomas por parte de pais, professores, médicos de família, pediatras, pedopsiquiatras, neuropediatras e da sociedade em geral; b) a intensificação do combate ao insucesso escolar e o acompanhamento mais próximo de alunos com dificuldades de aprendizagem; c) aumento exponencial do número de consultas especializadas em Portugal na última década e portanto, de crianças acompanhadas; d) aumento do número de raparigas em idade escolar tratadas por sintomas de desatenção (que anteriormente não eram tratadas por não apresentarem hiperatividade); e) só recentemente o MPH foi aprovado para uso nos adultos e só agora começam a surgir nalguns serviços de psiquiatria, consultas de hiperatividade para adultos, ainda de forma muito residual, sendo espectável um aumento considerável de prescrição nesta faixa etária.

Com base no número de embalagens vendidas, os dados sobre o consumo de metilfenidato em Portugal apontam para percentagens de cerca de 1,7% de crianças medicadas. Este número é muito inferior ao que se verifica na maior parte dos países ocidentais.

As taxas de medicação em Portugal são inferiores à média europeia.
Todos estamos desatentos de vez em quando e quem tem PHDA também pode estar atento em diversas ocasiões. O défice de atenção não é uma situação de tudo ou nada, como a gravidez, onde se está grávida ou não. A PHDA é mais como a depressão que se pode apresentar em formas ligeiras, moderadas ou graves. Andar 3 ou 4 dias mais triste do que o habitual não garante um diagnóstico de depressão, tal como ter um comportamento irrequieto num período limitado não garante o rótulo de PHDA. Para se poder fazer um diagnóstico de depressão ou de PHDA o impacto tem de ser significativo e persistente.

Um diagnóstico de PHDA implica um impacto significativo e crónico.
Está estabelecido pela investigação científica que a PHDA é uma perturbação do neurodesenvolvimento. É uma condição neurobiológica, comprovadamente uma doença do cérebro com marcada etiologia genética, envolvendo disfunção de várias regiões específicas do sistema nervoso central, concretamente o córtex pré-frontal e suas conexões com os núcleos da base e cerebelo. Há hoje um consenso mundial entre as diferentes sociedades científicas, como as academias europeias e americanas de pediatria, pedopsiquiatria, psiquiatria, a World Federation of ADHD ou a Eunethydis (rede europeia para o estudo da PHDA), relativamente às orientações diagnósticas e às diferentes abordagens terapêuticas desta perturbação.

A PHDA é uma condição neurobiológica com uma base marcadamente genética.
Na ausência de diagnóstico e de acompanhamento adequados, a PHDA pode causar problemas devastadores ao longo da vida. A disfunção cerebral associada à PHDA envolve importantes áreas neurocognitivas (função executiva, memórias de trabalho, linguagem, atenção e controle motor), prejudicando o funcionamento académico, familiar, ocupacional e social. Estas alterações podem persistir ao longo da vida adulta com repercussões negativas nas taxas de produtividade, no emprego e na vida familiar.

Os adultos com PHDA que não foram devidamente acompanhados, participam mais em atividades antissociais, consomem mais drogas ilícitas, são mais propensos a múltiplos acidentes de viação, gravidez na adolescência, doenças sexualmente transmissíveis, depressão, transtornos de personalidade, suicídio e criminalidade.

Não tratada devidamente, a PHDA pode causar sérios problemas ao longo da vida.
Apesar de haver uma relação clara com fatores ambientais, nomeadamente o grau de exigência que é hoje muito maior do que há alguns anos, está plenamente comprovado que a PHDA é uma doença do sistema nervoso central. As manifestações clínicas da PHDA surgem quando as capacidades em termos de função executiva são inferiores àquelas que seriam necessárias para ir de encontro a determinado nível de exigência. Isto pode não acontecer sempre na mesma idade e varia de indivíduo para indivíduo. É por isso que apesar das primeiras manifestações serem muito mais frequentes no inicio da escolaridade, podem surgir também na idade pré-escolar, na adolescência ou mesmo na idade adulta.

A PHDA não é uma perturbação primariamente ambiental.
É verdade que a PHDA está frequentemente relacionada com famílias mas apenas porque é altamente hereditária.

Estudos comparando gémeos idênticos evidenciaram um elevadíssimo índice de hereditariedade, o que significa que a maior parte da variabilidade em desenvolver PHDA não é da responsabilidade do ambiente familiar, mas sim de vulnerabilidades genéticas.

Estudos subsequentes mostram que esta vulnerabilidade não é causada por um gene particular mas por uma associação de grande número de genes.

Apesar de ser real a importância dos fatores ambientais, nomeadamente o ambiente sociofamiliar, no agravamento ou proteção relativamente às queixas de PHDA, NUNCA são a causa primária do seu surgimento.

A disfunção familiar que existe frequentemente nestas situações é mais consequência da PHDA, muitas vezes em mais do que um elemento da família, do que a causa da mesma.

A PHDA não é uma perturbação primariamente ambiental.
Isto era verdade há 2 ou 3 décadas. Com uma cada vez maior ênfase no défice de atenção relativamente à hiperatividade, esta diferença tem-se esbatido gradualmente, mesmo em crianças com menos de 10 anos. Na adolescência esta diferença sempre foi menor e na vida adulta é muito reduzida.

A excessiva valorização dos comportamentos externalizantes contribui para o subdiagnóstico em raparigas.
A investigação imagiológica evidencia de modo consistente diferenças no desenvolvimento cerebral de crianças com PHDA, nomeadamente atraso de 3 – 5 anos na maturação, espessura cortical e volume cerebral ligeiramente inferiores, conectividade entre regiões menos eficiente, reduções globais na substância cinzenta e alterações nas regiões subcorticais.

A investigação mostra diferenças nos cérebros de indivíduos com PHDA.
Múltiplos estudos deixam clara a melhoria a curto e médio prazo a diferentes níveis.

Assim, relativamente ao comportamento verifica-se:

  • • Redução dos níveis de hiperatividade, impulsividade e desatenção;
  • • Redução da agressividade;
  • • Redução da vulnerabilidade para comportamentos agressivos e antissociais.


Dos efeitos a nível da cognição, aprendizagem e desempenho académico destacam-se:

  • • Melhoria no desempenho académico;
  • • Melhoria em testes que avaliam a coordenação motora fina, vigilância, controlo dos impulsos, e tempo de reação;
  • • Memória a curto-prazo e aprendizagem de material verbal e não-verbal.


Efeitos nas relações sociais e interpessoais:


Em termos sociais verifica-se melhoria na qualidade das interações sociais entre a criança com PHDA e os seus pais, professores e pares, contribuindo para uma melhor integração.

A melhoria do funcionamento a curto prazo, condiciona uma melhor evolução no futuro.
Na PHDA é possível encontrar todo o contínuo de capacidade cognitiva, desde défices intelectuais ligeiros a sobredotados. A PHDA carateriza-se por ineficiência cognitiva global moderada ou por múltiplos défices específicos que afetam várias competências neurocognitivas, nomeadamente as memórias de trabalho, a linguagem, a coordenação motora e as funções executivas.

A PHDA existe em todo o espetro do desenvolvimento intelectual.
Os sintomas são variáveis situacionalmente. Algumas crianças conseguem estar horas, sem qualquer esforço, a jogar jogos de computador e são incapazes de estar mais de 2 minutos focados na matemática.

A PHDA não é um problema de força de vontade. Sabese que as decisões com impacto na motivação resultam primariamente de interações complexas e dinâmicas, envolvendo emoções influenciadas pela memória e padrões inatos de reatividade que operam com muito pouca influência da consciência.

O processo motivacional é muito pouco influenciado pelo controlo voluntário.

A PHDA não é um problema de força de vontade e está fora do controlo voluntário.
Uma abordagem não farmacológica isolada da PHDA está recomendada em crianças pré-escolares ou nas situações mais ligeiras.

Os estudos mostram que os efeitos da terapêutica não farmacológica são lentos, reduzidos e de menor eficácia.

O treino de pais e professores em técnicas comportamentais reduz comportamentos disruptivos e melhora a atenção em determinadas tarefas, mas os efeitos nas funções executivas são poucos e não duradouros.

Nas situações clinicamente significativas, a medicação é o “ingrediente fundamental” duma abordagem multimodal.

A abordagem terapêutica da PHDA deve ser idealmente multimodal.
A medicação não cura a PHDA mas para mais de 80% das crianças, devidamente gerida, melhora significativamente os sintomas, a autoestima, a qualidade de vida da criança e da família.

Esta medicação não funciona como os antibióticos, que curam a infeção. Funciona mais como um par de óculos, que corrigem a visão apenas no período em que se usam, não curando o problema subjacente.

A medicação da PHDA não tem um objetivo curativo mas sim de correção de um défice.
Como já anteriormente referido, a PHDA pode afetar todo o espetro do desenvolvimento cognitivo. Um dos grupos que mais beneficia dos efeitos da medicação é o das crianças com défice intelectual ligeiro e cognição borderline. A melhoria da atenção, das funções executivas, do comportamento, da integração social e do processamento, literalmente “transportam” as crianças que respondem à medicação para um patamar superior de funcionamento, melhorando significativamente o desempenho e a possibilidade de sucesso.

O défice intelectual não é uma contraindicação ao uso do metilfenidato.
Múltiplos estudos deixam clara a melhoria a curto e médio prazo a diferentes níveis.

Assim, relativamente ao comportamento verifica-se:

  • • Redução dos níveis de hiperatividade, impulsividade e desatenção;
  • • Redução da agressividade;
  • • Redução da vulnerabilidade para comportamentos agressivos e antissociais.


Dos efeitos a nível da cognição, aprendizagem e desempenho académico destacam-se:

  • • Melhoria no desempenho académico;
  • • Melhoria em testes que avaliam a coordenação motora fina, vigilância, controlo dos impulsos, e tempo de reação;
  • • Memória a curto-prazo e aprendizagem de material verbal e não-verbal.


Efeitos nas relações sociais e interpessoais:

Em termos sociais verifica-se melhoria na qualidade das interações sociais entre a criança com PHDA e os seus pais, professores e pares, contribuindo para uma melhor integração.

A melhoria do funcionamento a curto prazo, condiciona uma melhor evolução no futuro.
1. Boavida, J., Almeida, M., & Alfaiate, C. (2018). Compreender a PHDA (1ª Edição). BIDL Lda., Coimbra.